terça-feira, 9 de setembro de 2008

O negro na Bíblia


Diante dessa onda que se abateu sobre a pessoa do Pr. Dep. Marco Feliciano em que ele é acusado de racista, estou reeditando a postagem que trata exatamente sobre o negro na Bíblia. A referida matéria foi publicada originalmente no Jornal Mensageiro da Paz e que eu a transcrevi (como assinante do jornal MP), em setembro de 2008. Confira:

Segundo estudiosos, as Escrituras são repletas de personagens negros que ajudaram a construir a fé cristã.

Os números do Instituto Brasi­leiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam para a exis­tência de aproximadamente 12 milhões de negros - dos quais mais de 8 milhões pertencentes a denomina­ções pentecostais - nas igrejas evan­gélicas do Brasil. Os dados do IBGE são ainda mais impressionantes quan­do comparados à população de negros na Umbanda e no Candomblé, a qual é constituída por pouco mais de 250 mil pessoas. Por um lado, esses núme­ros derrubam a ideia de que as religiões de matrizes africanas são as que mais atraem os afros descendentes brasileiros; por outro, estimulam a pensar a participação dos negros nas igrejas evangéli­cas e até mesmo no contexto bíblico.

De acordo com o Pr. Marco Davi de Oliveira, da Igreja Batista de Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e autor do livro A religião mais negra do Brasil, o total de negros nas fileiras evangélicas somente perde em número para os que frequentam a Igreja Católica Romana. "Entretanto, a maioria dos negros que professam o catolicismo não frequenta ativamente a igreja, ao contrário do que acontece com os que são membros de igrejas evangélicas", destaca.

Tão ou mais impressio­nante que os dados do IBGE e a constatação do Pr. Marco Davi é ter notícia de que essa estreita ligação da co­munidade negra com a Palavra é muito mais antiga do que se imagina: está na Bíblia. De acordo com Paulo de Sousa Oliveira, historiador e antropólogo da Universidade de São Paulo (USP) e professor do Seminário Teológico Batista Nacional, também na capital paulista o Livro de Gênesis mostra que Noé teve três filhos: Cam, que significa escuro ou negro; Sem, que quer dizer pardo ou cor de oliva; Jafé, que seria algo como claro ou loiro. "É justamente nesse relato que muitos biblistas e antropólogos acreditam estar a chave para a explicação de todos os grupos ét­nicos", defende o historiador da USP.

Cam é considerado o pai ancestral dos negros, mongóis e ín­dios (Gn 10.6);

Sem, por sua vez, é ti­do como ascendente dos semitas, divi­didos em árabes e judeus;

Jafé é consi­derado o progenitor dos caucasianos. (Diz-se de uma família de línguas faladas na região do Cáucaso (U.R.S.S.). O habitante ou natural do Cáucaso).


Autor do livro Os negros da Bíblia e os do Brasil, Paulo de Sousa Oliveira explica que, de acordo com a Bíblia, os descendentes de Cam estabeleceram-se nas regiões da Etiópia (Cuxe), Líbia (Pute), do Egito (Mizraim) e da Palestina, conhecida como Canaã, em referência ao filho primogênito de Noé - região que foi tomada pelos se­mitas. Seguindo essa linha de raciocínio  é possível concluir que os faraós egípcios, em sua maioria, eram negros.


Outra curiosidade apontada pelo historiador é que os casamentos entre diferentes grupos étnicos não eram incomuns no Antigo e no Novo Testamento. "As restrições a uniões com grupos étnicos diferentes, registra­das nas Escrituras, aplicam-se em função da preservação de um padrão reli­gioso ameaçado, e não devido à diversi­dade étnica das partes envolvidas", de­fende o antropólogo. Uma prova disso é que o maior personagem do Êxodo, Moisés, casou-se com uma cuxita (etíope - Nm 11 e 12). O próprio ter­mo cuxe - muito usado nas Escrituras, variando diversas vezes com a palavra etíope - significa: pessoas que tinham o rosto queimado. Outro cuxita de destaque nas Escrituras foi Ninrode, fundador das grandes civilizações de Babilônia e Assíria.


Ao ler o Antigo Testamento é impossível não notar a citação feita à (negra) rainha de Sabá, uma das personagens mais intrigan­tes das Escrituras. Sabá era um anti­go reino árabe, onde hoje se situa a região da Etiópia. Segundo a narrati­va bíblica, a rainha de Sabá, chamada por alguns historiadores de Balkis, foi atraída para Jerusalém pela fama de Salomão (1Rs 10).

Segundo a tradição etíope, Salomão e Balkis teriam tido um filho, Menelik, que, durante sua juventude, fora edu­cado nos palácios de Salomão e, mais tarde, por motivos políticos, fora pa­ra Sabá, levando consigo uma comiti­va de 12 mil israelitas, além da Arca da Aliança. Ainda segundo a tradição etíope, os falashas, ou judeus negros, são descendentes de Salomão - entre­tanto, vale ressaltar que tais fatos não são citados na Bíblia.

Em 1985, um grupo de 14 milfa­lashas (judeus da Etiópia que se referem a si mesmos como a Casa de Israel) foram repatriados pelo esta­do de Israel por meio da Operação Moisés, um resgate feito pelo Mossad (o serviço secreto israelense) em con­junto com a CIA (a agência de inves­tigações norte-americana).

Outra passagem que relata a presen­ça do negro nas Escrituras está registra­da em Jeremias. 38.5-13. Por causa do que previu, Jeremias foi lançado no ca­labouço de Malaquias, filho do então rei Zedequias. Entretanto, um etíope, chamado Ebede-Meleque, oficial do palácio, intercedeu pelo profeta junto ao rei, livrando Jeremias da prisão.


No Novo Testamento, as Es­crituras relatam ainda a presença de Simeão, o Níger, que, em latim, sig­nifica o Negro. Ele foi um dos pais da igreja de Antioquia e teve seu no­me citado na Bíblia como um dos pro­fetas e mestres (At 13.1), juntamen­te com Lúcio, cireneu - que era de Cirene, uma cidade da Líbia situada ao Norte da África. Outro persona­gem foi Simão (Mt 27.32), que tam­bém era cireneu e foi chamado pelos soldados de Pilatos para ajudar Jesus a carregar Sua cruz rumo ao gólgota. Há também a presença de um ho­mem etíope, mordomo-mor da rainha Candace, que se converteu por meio das palavras de Filipe, sendo batizado em seguida (At 8.27).

O teólogo e historiador baiano Walter Passos, autor do livro Teologia negra: a revelação, funda­dor do Movimento Negro Unificado da Bahia, vai mais longe. Em sua opi­nião, os negros surgiram mesmo antes da tragédia diluviana. "As provas da Arqueologia, História, Lingüística, Biologia e de todas as ciências apontam para o continente africano como palco do surgimento da humanidade", afir­ma. Precursor de uma linha de pesqui­sa intitulada afro-centrismo  Passos acre­dita que a história humana foi iniciada por meio da etnia negra. "Deus fez o homem a sua imagem e semelhança e o fez negro", opina.

Discussões antropológicas e conhe­cimentos científicos à parte, o que vale é lembrar a sensata opinião do apósto­lo Paulo sobre as diferenças: Porquanto não há diferença entre judeu e grego, porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam (Rm 10.12).

Fonte: Jornal MP