quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Igreja e igreja

Igreja não é de essência humana (organização), mas de natureza espiritual, ou seja, organismo vivo, o corpo. Ele se move, em comunhão, com articulações perfeitas e bem ajustadas, movido pela Cabeça – Cristo. “Vós sois a luz do mundo”… “Brilhe a vossa luz”.

A Igreja jamais adotou o mimetismo como sua marca diante da sociedade, mas sempre destacou-se por assumir postura da figurada metanóia (dar meia volta e passar a andar na contramão do caminho percorrido até então). É mudança brusca.É despir-se do homem velho e vestir-se do novo.É morrer para o mundo (o sistema) e nascer para o Eterno.É compreender e não ser compreendido…Igreja é eklesia, isto é tirado para fora (“resgatados da vossa vã maneira de viver”.

É o oposto ao que dissera Edir Macedo, ao relatar que a Universal assumiu a Teologia da Prosperidade, percebida não só em sua declaração à repórter da própria Record, em Miami, mas por sua postura e ainda por tudo quanto tentou mostrar em termos de possessão temporal.
“Buscai primeiro o Reino dos Céus e as demais coisas vos serão acrescentadas”. Coisas?! É isso mesmo! O Reino tem nome, as necessidades ou benesses temporais, não passam de coisas.

A prosperidade de que fala a Bíblia está em pleno acordo com a exortação do Cristo (“O Reino em primeiro”): “Bem aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, Nem se detém no caminho dos pecadores. Nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Pois será como árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem, e tudo quanto fizer prosperará. Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha. Pelo que os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos. Porque o Senhor conhece o caminho dos justos; mas o caminho dos ímpios perecerá”, Sl 1.

Riqueza temporal

Se analisarmos todas as denominações que representam a Igreja do Senhor, vamos perceber que elas detêm um volume considerável de posses, mesmo as identificadas com a essência cristã, outras não tão próximas, algumas totalmente longes e já desligadas, em consequência de dogmas de essência humana, outras em cima do muro…

Talvez seja isso o que mais alimenta a crítica de progressistas, gnósticos e ateus, que assumem postura politizada dentro da visão humanista da Teologia da Libertação, por não conseguirem separar corpo (o Corpo de Cristo, com uma única cabeça, o próprio Cristo) e os monstros que se vêem por aí. Ou percebem algo essencialmente humano, ou que teria de ser totalmente espírito, pois, como afirmavam os gnósticos, a carne é em essência pecado.

Ocorre que algumas igrejas possuem estrutura semelhante a da própria Igreja, a partir da Igreja Primitiva – um Concílio, conforme Atos 15, com proeminência de Tomé, irmão do Senhor. Neste caso, todos os líderes têm efetiva participação, mas não saem dos princípios ditados pela doutrina dos Apóstolos, nomeados por Cristo e, depois destes, os Pais da Igreja até o fechamento do cânon, concluído no século 4.

De lá para cá, como todos os mais esclarecidos conhecem, a Igreja passou por turbulências que alteraram padrões e criaram destinos, acasos, privando-a da providência divina. Mas o enfraquecimento do Corpo ocasionou a Reforma. Na Idade Média, por exemplo, a igreja, por suas mirabolantes formas de angariar fundos, poderia, sem quebra de paradigmas, receber o nome de Igreja Católica (Universal) do Reino de Deus.

Quem e como dirige?

Então, a diferença está na condução, isto é, quem, como, para onde conduz e com que interesse? Quando Jesus foi tentado pelo Diabo, no limiar de seu ministério, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Jesus é a Pedra de Esquina, a Pedra Principal, a Rocha Eterna (1Pd 2.-10), enquanto a Palavra alerta: “Mas veja como cada um edifica sobre Ele”.

A Igreja não tem dono, líder absoluto (sem nenhuma alusão à filosofia do Iluminismo, da quebra do Absolutismo), pois seu dono é Deus e o seu líder é Cristo – o Cabeça (do Corpo). Isso é absoluto. Também não existe unção eclesiástica fora do Corpo (da Igreja) como temos visto por aí, com nomenclaturas das mais diversas e para todos os gostos.

“E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão” (Hb 5.4). Ministérios têm fins específicos e para cada situação no corpo e são bem ajustados no mesmo. Quando em Efésios o apóstolo diz que “Ele mesmo deu uns para (apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores), indica um fim específico, demonstrado na preposição para, que demonstra finalidade. Outras estruturas podem ser semelhantes, mas não iguais, pois não existem outras… a Igreja é única.

Quando essa máxima sofre alteração ela deixa de ser igreja e passa a ser uma organização religiosa. Deixa de ser religião, pois Igreja é e sempre será religião – meio de religar o homem a Deus, através de Jesus Cristo, o único intercessor entre Deus e os homens (cf 1Tm 2.5). Religião é “Serviço ou culto a Deus…; crença, devoção, fé, piedade; Tudo que é considerado obrigação moral ou dever sagrado e indeclinável; Filos. Reconhecimento prático de nossa dependência de Deus” (Michaelis).

A Igreja não existe fora de todo esse contexto, estabelecido como corpo, em que seus membros aparecem de forma ordenada, ocupando os espaços e atribuições no próprio Corpo, conforme orientação do Espírito. E isso atinge desde a liderança ao mais simples membro, seja o equivalente a um dedo ou unha, orelha… mas ligado ao Corpo e este à (única) Cabeça. Se os membros forem desordenados e se o corpo possuir mais de uma cabeça deixa de ser corpo para mostrar-se monstro.

Joio misturado do trigo

“O Reino dos Céus é semelhante ao homem que semeia boa semente no seu campo. Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. Deixai crescer ambos juntos até a ceifa e, por ocasião da ceifa direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para queimar, mas o trigo ajuntai-o no meu celeiro”, MT 13.24-25,30.

Embora necessite de uma casa de tesouro, “para que haja mantimento na minha Casa” (cf Ml 3), isto é, ter o seu depósito cheio, para dar sustento à sua missão, tanto no que diz respeito ao suporte às ações espirituais quanto as sociais, a riqueza da Igreja é realçada pelas ações que os homens naturais (os que não são filhos do Reino, mas criaturas de Deus, cf Jo 1.11.12; 1Tm 2.1-6 e 1Ts 1.4) não podem alcançar. O seu preço excede a valores humanos e temporais, conforme se viu no fato de Elimas, o mágico, ao tentar comprar (pagar) o poder do Alto. A Palavra esclarece-nos que não fomos comprados com ouro ou prata, mas com o sangue de Jesus, por meio do qual fomos redimidos de nossa vã maneira de viver.

Hoje, temos de ser mais protestantes que propriamente evangélicos, mais seguidores de Cristo, que cristãos nominais.

A Bíblia alerta para a estupidez de o homem esperar “em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.19).

Como membros do Corpo (de Cristo) somos 100% humanos, mas lutamos para alcançarmos um corpo 100% espiritual, por meio daquilo que plantamos aqui (“Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual”, 1Co 15.44).
Do blog: FronteiraFinal.