quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Filosofia e Divindade


A lógica e matemática já não bastam para explicar a realidade. Por isso, os cientistas trazem de novo à cena a hipótese da divindade, DEUS! 

Quando o matemático, físico e astrônomo francês Pierre Simon de Laplace (1749-1827) apresentou a Napoleão Bonaparte sua Mecânica Celeste, o imperador comentou: “Escrevestes este enorme livro sobre o sistema do mundo sem mencionar uma só vez o Autor do universo”. Laplace respondeu com uma frase que ficou famosa: “Senhor, não senti necessidade dessa hipótese”. Esse episódio ilustra bem a grande mudança que ocorreu na passagem do século 18 para o 19: a ciência, que até então guardava judiciosamente um lugar para Deus no concerto do universo, passava a proclamar, sem meias palavras, que Ele já não era mais necessário. A razão era uma ferramenta que se bastava para explicar a realidade. Essa visão ultramaterialista daria o tom da teoria do conhecimento que permaneceria até o alvorecer do século 20. 

Somente no início deste século os cientistas começaram a se dar conta de que a lógica e a matemática não bastam para se obter uma compreensão completa da realidade. Amontoam-se nas mesas dos pesquisadores registros de fatos que não podem ser conhecidos pela via científica tradicional, e não são poucos os cientistas que hoje dividem seu tempo entre os afazeres do laboratório e incursões nos mistérios da religião, em especial dos misticismos orientais. Hoje, o método racional mistura-se com formas não-lógicas de decifrar o mundo. E físicos de renome, como foi o brasileiro Mario Schenberg, não hesitam em proclamar que “não há outro caminho para atingir a realidade a não ser através da imaginação”. 

O lance de Laplace foi um duro rompimento com o diapasão científico da época, proposto dois Séculos antes pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), que havia escrito seu exuberante tratado Harmonice mundi (Harmonia do mundo), como um hino de louvor ao Criador. Ele assim dava o novo tom da ciência dos séculos 16 e 17. O divórcio entre ciência e a religião começou com o julgamento do físico italiano Galileu Galilei pela Santa Inquisição.A Igreja Católica obrigou-o a se retratar por ter ousado opor-se à sagrada (e equivocada) teoria cristã do geocentrismo, segundo a qual o Sol e os planetas giram em torno da Terra. E defender o heliocentrismo, para o qual a Terra e os planetas é que giram em torno do Sol, proposto por Nicolau Copérnico.Depois de Laplace, esse divórcio chegaria ao ateísmo radical com os dois pensadores que mais influenciaram a vida intelectual dos primeiros 70 anos do século 20: os judeus-alemães Karl Marx (1818-1883) e Sigmundo Freud (1856-1939). Mas foi mesmo no final do século 17, com a construção do chamado paradigma mecanicista de Galileu, Descartes e Newton, que ciência e religião passaram a trilhar caminhos distintos. Nas obras de Galileu, Descartes e Newton, Deus não está ausente. Porém, encontra-se tão afastado do mundo, concebido como um imenso artefato mecânico (daí mecanicismo), que não admira que pouco tempo depois Laplace o tenha excluído por completo.

A revolução científica do século 20 colocou em xeque o paradigma mecanicista. E o questionamento da visão de mundo moderno começou, não por coincidência, na própria disciplina científica onde ela havia nascido: na física, com a Teoria da relatividade de Albert Einstein, e a Teoria Quântica, de Niels Bohr, e outros. Neste final de século 20, a realidade, objeto do conhecimento, é bem mais complexa do que podiam supor Galileu Descartes e Newton.As teorias científicas são construções mentais necessariamente limitadas e provisórias acerca dosa fenômenos observados. E sobre a existência de Deus, nada se pode dizer. “A ciência não pode confirmá-la ou desmentí-la”, diz o físico brasileiro César Lattes. “O cientista não pode se proclamar ateu, pois a questão da divindade se coloca além da razão”. Dessa forma, o mais rasoável para o cientista é permanecer agnóstico. Agnóstico é a teoria segundo a qual sobre Deus nada pode ser conhecido ou afirmado. Em outras palavras, pretende negar a existência de Deus a partir de argumentos pretensamente científicos, como fizeram os pensadores materialistas dos séculos 19 e 20, é tão ingênuo como querer demonstrá-la a partir de provas lógicas, práticas comuns entre filósofos escolásticos da Idade Média.

Resta a pergunta sobre o Deus dos cientistas. Em quem eles acreditam? Qual é, afinal, a religião desses homens empedernidos, acostumados a buscar teimosamente respostas corretas para todas as perguntas? A religiosidade do cientista não está mais em introduzir o conceito de deus no corpo de sua teoria. Mas, como disse Einstein, “em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, reveladora de uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo o seu engenho não podem desvendar, diante dela, senão um nada irrisório”.